Desordem informacional sobre o uso da terra: a construção de um conceito materialista, dialético e sistêmico

  • Autor
  • Monique Figueira
  • Co-autores
  • Bruna Távora
  • Resumo
  • A questão da terra é estruturante para a soberania e, no Brasil, envolve intensas disputas informacionais e comunicacionais. Em estudo recente (Figueira; Távora, 2025), observamos que a dinâmica da bancada ruralista, denominada Frente Parlamentar da Agropecuária, vai muito além do lobby tradicional. A coalizão mais poderosa do Congresso emprega o que estudiosos identificam como desordem informacional (Wardle; Derakhshan, 2017): campanhas para moldar a opinião política em defesa de interesses econômicos privados — no caso, principalmente a flexibilização de leis ambientais e fundiárias. 

    Estudos sobre questões agrárias e rurais são profícuos na epistemologia latino-americana da comunicação. Pesquisas seminais de Paulo Freire (2021) e Díaz Bordenave (1990) mostraram as estratégias comunicativas articuladas à Revolução Verde, enquanto Mário Kaplún (1985) e Cicilia Peruzzo (2021) analisaram as formas de resistência e de apropriação tecnológica de povos e comunidades tradicionais. 

    Na economia política da informação, da comunicação e da cultura (EPICC), Santos et al. (2019) documentaram a campanha milionária da Rede Globo Agro é Tech, Agro é Tudo; Herrera-Jaramillo e Bolaño (2019), a difusão científica e cultural promovida pelos Estados Unidos em áreas rurais; já Aires e Santos (2024) demonstraram, com a noção de coronelismo eletrônico, a associação de elites locais midiáticas a proprietários de terra. Távora (2024) apontou ainda o recurso da desinformação contra movimentos socioterritoriais, e, na ciência da informação, Figueira (2023) analisou que os registros fundiários oficiais do país estão dispersos em sistemas públicos e privados, sem acesso aberto, sobrepondo dados incorretos ou incompletos com manipulação intencional. 

    Buscando enriquecer o debate, a construção do conceito de “desordem informacional sobre o uso da terra” se ancora no materialismo dialético histórico e geográfico a fim de compor um instrumento analítico sobre esse recente objeto epistemológico, a desordem informacional. Comumente circunscrita a notícias falsas associadas à extrema-direita, aqui abarca-se também, de modo sistêmico, fenômenos transdisciplinares e de longa duração, desde antigos registros coloniais das sesmarias até as mais novas formas de imperialismo com a dataficação da natureza. Os oligopólios de tecnologia, as big techs, estão convergindo com os agroalimentares, as big ags.

    Metodologicamente, a agenda de estudo propõe uma matriz analítica em quatro camadas: 1- cartografia dos agentes no conflito (empresas, Estado, coalizões, organizações locais); 2- mapeamento de formatos em mídias, documentos e plataformas produzidas pelos grupos envolvidos; 3- identificação de novos marcadores de desordem informacional além da informação incorreta, maliciosa, e desinformação, como a confusão estratégica e a manipulação com ódio; e 4- análise das práticas de resistência de movimentos sociais e condições de manutenção relacional, como comissões locais, mediações comunitárias e letramento crítico. 

    Ao articular base material e operações discursivas, a EPICC explicita porque princípios constitucionais como a função social da propriedade e a livre expressão da comunicação são, na prática, esvaziados. Nossa hipótese sustenta que a desordem informacional sobre o uso da terra, em vez de ruído, serve como componente funcional à expropriação sistêmica do capitalismo. O conceito visa colaborar com pesquisas e políticas de informação e de comunicação orientadas a direitos socioterritoriais, à preservação ambiental e à perspectiva materialista da realidade. 

  • Palavras-chave
  • Desordem informacional; Economia Política; Regime de Informação; Conflitos socioambientais; Governança territorial.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 6 - Teoria e Epistemologia da Economia Política da Comunicação
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